Que tal

Que tal viver em um mundo no qual as dobrinhas da sua barriga são veneradas como parte da sua beleza natural, em um mundo onde os cabelos brancos não são sinais de relaxamento? Que tal trabalhar a sua cabeça para aceitar o seu cabelo, a sua pele, a sua cor, o seu formato, a sua natureza ao invés de trabalhar para poder pagar por todas essas alterações artificiais? Que tal viver em um mundo em que as rugas do rosto são entendidas como sabedoria e, as pessoas, respeitadas? Ficar confortável, ao invés de ficar posando para foto. Que tal? Que tal viver em um mundo que não maltrata outros seres para se alimentar nem para consumir? Que tal viver em harmonia consigo mesmo, com os seus vizinhos? Que tal aceitar ter menos para não se sacrificar nem explorar o próximo sem que seja por total e absoluta necessidade? Que tal experimentar usar menos sacolas plásticas, comer menos carne, comprar menos roupas, trocar menos de carro, de parceiro, andar mais a pé, ir você mesmo resolver os seus problemas… Que tal beber menos cerveja e mais água, acender mais incensos e velas do que cigarros… Que tal experimentar algo novo para que você possa fazer do seu pedacinho da Terra um pedacinho mais próximo do céu? Que tal se mexer ao invés de ficar parado, pensando? Que tal?

still beautiful

Não é só você, ou só eu: somos todos nós.

Nuvens escuras passageiras por conta do vento forte que as leva. Já choveu. Já pedi para que a chuva me lavasse, me levasse. O vento passa e carrega com velocidade os galhos e as folhas das árvores mais próximas, chacoalhando a vida e eu observo, como se fora de mim fosse a representação exata do que vai dentro: um dia de tempestade, um dia de mar revolto. O som do vai e vem feito pelos galhos das árvores é calmante para o meu tumulto interno. Penso se seria a diversão máxima que esses seres, movidos por nada além de humildade e, portanto, fincados ao solo na mesma posição e local em que crescem ter as suas partes dançando com o vento.

Mas aí lembro: não é só você ou só eu. Somos todos nós. Todos nós sob as mesmas influências, com as mesmas questões, vivendo com os nossos próprios desequilíbrios que se refletem no desequilíbrio do planeta. Não é só você, ou só eu: somos todos nós.

Radical nada chique

Se eu desse ouvidos à minha tendência radical e excluísse do meu círculo de conhecidos e amigos as pessoas de acordo com os seus posts no facebook, primeiro… É possível que eu já tivesse sido excluída da lista de muita gente por ser uma crítica tão chata e inflexível. Mas reconhecendo e abraçando essa parte da minha natureza e dando ouvidos ao tipo de gente que eu quero ter perto (e ser a rainha de espadas que no fundo eu sei que sou, cortando os laços de passado que fazem volume e não diferença) sobrariam de cinco a dez pessoas? Os que postam coisas sexistas, os que são a favor das ditaduras no Brasil e no mundo, os que são a favor de baixar a maioridade penal e apoiam outras violências, os que comem carne com frequência sem visão crítica nem peso na consciência, os que não trabalham uma vírgula pelo social ou pelo meio-ambiente e só querem saber de consumo, os que preferem ignorar os problemas e os que só querem saber de festa seriam o meu alvo. Mas a palavra do mês (e talvez do ano) é equilíbrio. Ninguém vence sozinho. E eu também preciso de amor e tolerância. Ninguém é perfeito. Estamos todos encontrando um caminho. (Tenho esperança de que as pessoas não tenham desistido de procurar um caminho…) Vou repetindo esses mantras até que se tornem realidade. Acho que é mais difícil aceitar os outros nos períodos em que não consigo aceitar a mim mesma.

Moramos em um planeta

Às vezes, nos damos conta de coisas óbvias, tipo: moramos em um planeta.

Em um PLA-NE-TA.

moramos em um planeta

(…)

Vivemos no planeta Terra. Me tire desse planeta e aí sim me sentirei estrangeira. Barreiras, fronteiras e culturas são imposições construídas. Será que se não fôssemos ensinados sobre bandeiras e hinos, etnias, línguas e culturas diferentes perceberíamos fazer parte da mesma coisa, da mesma vida?

Ontem, passei de trem por um local de reciclagem de lixo. A gente não percebe quanto lixo produz em sociedade. O lixo vai para um local bem longe dos nossos olhos, não percebemos. Nem sabemos para onde o lixo vai! Mas ele vai para algum lugar, e eu digo: não vai para fora do planeta.

Eu sei que isso já foi dito, não é criação minha – mas não há um „jogar fora“. Já pensaram nisso?

Todas as nossas escolhas enquanto consumidores controlam a produção nas indústrias e geram consequências. Esses são os nossos valores capitalistas. A tinta para tingir os cabelos brancos, a química para tingir as roupas, os metais das indústrias, as químicas das empresas farmacêuticas, da indústria alimentícia… TUDO vai para a Terra.

E a gente não vê. Dizem „os mares estão poluídos“. Mas a gente não viu ele mudar de cor, então parece estar tudo bem. A gente não viu a mutação genética dos peixes, então parece estar tudo bem. A gente (quase) não vê os coliformes fecais boiando, então parece estar tudo bem! Parece…

E tem muita gente que prefere dizer „ah,, paciência… são males dos nossos tempos“. Mas eu, por ter escolhido um caminho de verdade prefiro olhar as coisas como elas são. E não posso simplesmente ignorá-las. O racismo, a violência contra mulheres, contra os homossexuais, contra as crianças… São tantas coisas que foram ignoradas por tanto tempo! Já não se pode mais ignorar essas coisas. Da mesma forma, as nossas manias, gostos, os nossos consumos são escolhas que apresentam consequências para a vida e que também não podem ser ignoradas. Parece impossível sair fora desse sistema. Parece…

Tudo me faz pensar. Ontem, por exemplo, vi uma notícia sobre extensões de cabelo. São mulheres que querem ter cabelo comprido sem esperar o crescimento e compram cabelo natural para fazer extensões e ganhar volume. Mas o foco da reportagem não foi a estética, e sim outro: o das mulheres que têm o cabelo roubado à força na rua (gangues na Venezuela, cortam o seu cabelo e enviam para a Índia). No pacote vem dizendo sempre que é cabelo natural da Índia; não foi encontrado nenhum pacote, dizendo “feito com cabelo latino roubado“. Parece a coisa mais besta do mundo. Parece…

They Live

E não sabemos. Não sabemos como a mercadoria chega até a gente. Mas precisamos ficar um pouquinho mais curiosos. Não acham? Desobedecer a esse deus, o “Marketing” (tem um filme trash de 1988 que fala sobre isso, “They Live”). Além do roubo de cabelo, a reportagem mostrou também a preparação química de um cabelo natural para ser usado como extensão (primeiro para limpar, depois para descolorir e, por último, para tingí-los com a cor da cliente). Esses tonéis de química desnecessários (para satisfazer uma indústria de beleza, não de sobrevivência) não desaparecem com o piscar dos olhos da Jeannie! Isso vai pra onde, Lombardi?

Há outras opções, há outros métodos. Mas é mais fácil continuar dando de ombros, e dizendo „Paciência!“, pois eles dão mais trabalho. E já estamos tão envolvidos com os problemas do nosso dia-a-dia para perceber que não haverá mais dia-a-dia, logo-logo… Parece que o próximo dia irá nascer. Parece…

Inofensivo

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Eu ganhei um ingresso do festival F.I.N.D. 2014 para ir visitar uma instalação sueca de 240 horas seguidas de performance („Meat“). Então eu li esse texto e fiquei desanimada:

http://find-blog.de/post/78430593803/240-hours-of-meat-by-joseph-pearson-the

Por construir um mundo como o do assassino, toda a equipe de atores e produção começam a compreender como a mente dele funcionava e, então, as coisas “passavam a fazer sentido” – e ser convencido por essa realidade é que é a parte assustadora do processo, de acordo com o diretor.

Depois, no facebook, uma amiga postou o seguinte texto, publicando no „The Guardian“:

http://www.theguardian.com/world/2013/oct/20/young-people-japan-stopped-having-sex

Então, eu tenho algumas coisas a dizer.

As coisas que fazemos não são inofensivas. As coisas que criamos não são inofensivas. As coisas que dizemos não são inofensivas. As coisas que aceitamos também não. A tecnologia não é inofensiva; assistir a filmes pornôs não é inofensivo. Fazer compras no shopping também não. Os produtos que consumimos não são livres de culpa. Nenhum de nós está isento de responsabilidade.

Algumas obras de arte podem ser manifestações divinas na Terra, mas o artista nunca é deus. Poucas vezes o artista é, sequer, um homem inteiro.

Hitler tinha como ídolo o rei da Prússia „Frederico, o Grande“, apesar de esse rei ter se destacado na sua época por sua benevolência, ser um artista e filósofo iluminista e propagar a tolerância religiosa. Hitler também usou conceitos desenvolvidos por Nietzsche („der Übermensch“), embora em sua obra houvesse uma grande afirmação da vida e não incitação à dizimação em massa… E Wagner foi “o compositor” da Alemanha nazista…

Marilyn Manson não é culpado pelos massacres em Columbine. New Order não é responsável pela música usada no vídeo feito pelo assassino Luka Rocco Magnotta.

Mesmo assim, é impossível dissociar esses artistas e filósofos dos eventos nos quais foram usados. Eu nunca mais vou conseguir ouvir “True Faith” da mesma forma…

E ainda não descobri como não ser a outra face de uma mesma moeda por não conseguir aceitar e nem querer corroborar com a sociedade que temos hoje, para que ela continue se propagando. A minha pergunta interna é: ao ser intolerante contra homofóbicos, contra fanáticos religiosos, contra racistas, contra estrupradores e perpetuadores do patriarcado e de outros males seria eu mais uma dos intolerantes e julgadores do mundo? A minha força seria a mesma da dos opressores? Isso é, para mim, uma proximidade indesejável. E sinto que preciso continuar pensando em como não fazer mais parte dessa moeda.

Esses sistemas corruptos e imundos estão fadados a cair. A questão é quanto estrago fazem pelo caminho até esse momento. Hitler levou seis milhões de judeus, um milhão de outras minorias, vários inimigos políticos, alguns civis e oficiais nazistas, entre outros. E, enquanto isso, pessoas comuns e que aparentemente apenas levavam as suas vidas estão sendo e serão aniquiladas. É o que observamos. Esse terror de catástrofe natural ou social não é de agora; seguem em ondas. Acontecem desde que o mundo é mundo. As nossas civilizações (e já tivemos várias) nunca superaram esses fenômenos, muitas civilizações acabaram, outras nasceram e eles continuam acontecendo.

Tenho estudado a história de Berlim para trabalhar como guia turística e é impressionante o quanto a gente não sabe no Brasil (quanto descaso, desinteresse e falta de curiosidade temos, e o quanto isso influencia a nossa vida em sociedade). Ao mesmo tempo que fico aliviada por ter saído do “prefiro não saber”, passei a ser intolerante com quem apresenta essa escolha. As coisas se repetem em outros níveis pela história do mundo, em várias sociedades, inclusive na brasileira – ou a criação de um partido com o nome de “Frente Nacional Brasileira”, feito por um militar que é a favor de ditaduras não lembra em nada o partido nazista dos “Nacionais Socialistas”? Os fatos e personalidades que estudamos nos livros não são invenções distantes, são reais e simples ideias podem ser levadas a extremos absurdo do fanatismo e causar tanto mal e destruição. E, finalmente, como tudo o que fazemos, ouvimos e aceitamos não é inofensivo.

 

 

Eu tenho uma Estrela guia

Para o caso das pessoas fisicamente cegas, há os cães-guia. Para o caso das pessoas espiritualmente cegas, há os gatos. Eu tenho uma, a Estrela. Há 13 anos, ela é a minha Estrela guia. Nesse caso, não é exagero.

Como tudo começou… Eu estava na vila da minha professora de canto, no ano de 2001, prestes a tocar o interfone para ela abrir a porta quando vejo a coisa mais irresistível do mundo: dois filhotinhos de gato correndo! Chamei, mas eles não vieram. Cagaram para mim. (Aposto que eram machos.)

No entanto, tinha um outro filhotinho embaixo do carro que estava ao meu lado que eu não tinha visto. Esse filhote não só atendeu ao meu chamado, como veio ficar se enredando nas minhas pernas, miando e deixou eu pegar no colo. Vi que era fêmea. Ela era muito boazinha. Ela dormiu comigo fazendo carinho. Olhei pra ver se ela tinha insetos ou pulga e vi que estava limpinha! Esfreguei ela no nariz pra ver se ia me dar alergia. Ah é… No Rio de Janeiro eu tenho uma rinite alérgica dos infernos. Não espirrei. Alegria máxima!

Sentei no banco da pracinha. Fiquei fazendo carinho na filhotinha enquanto ela dormia, pensando „se eu levar você pra casa, vou dar o seu nome de Estrela“ (por causa da cor dela). Nessa hora, estavam paradas na minha frente duas meninas que moravam na vila. Elas me perguntaram se eu ia levá-la pra casa. Elas disseram que essa filhotinha era a mais boazinha, e que era a única que já tinha um nome… Estrela!

Tudo bem, o meu queixo caiu e os meus olhos enxeram dágua. Eu tinha *acabado* de ter esse pensamento, e as meninas vêm me dar essa confirmação? Era para ser. A minha mãe odiava gatos. Bateu o pé que não, mas nesse quesito ela costumava perder para mim, a filha desobediente. É claro que eu levei ela pra casa! Por causa da Estrela, a minha mãe hoje adora gatos. Aliás, todo mundo que já conheceu a Estrela fica apaixonado, porque ela é linda e um amor, adora gente. Ela só odeia outros gatos e gente bruta. Alguns ex-namorados também 😀 Bonitinha ❤

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Coentro com sal grosso

Uma vez, ganhei de presente de uma portuguesa amiga minha um saquinho de sal grosso com coentro. O sal vem das salinas da terra dela, de Caldas da Rainha.

Havia tempos que eu estava querendo tomar um banho com esse sal. Nunca usei ele para temperar comida. Hoje, depois de um dia estressante finalmente enchi a banheira e virei uma sopinha.

Fui trabalhar como voluntária e recebi uma missão: ajudar a uma senhora brasileira com cidadania portuguesa que, por desespero, veio parar em Berlim sem dinheiro, sem ter aonde ficar, sem conhecer ninguém e sem falar uma palavra de alemão. O marido está doente em Portugal e eles estão para perder a casa que pagaram até hoje por causa da crise. Faltam só mais dois anos para completar os pagamentos. Fiz muitos telefonemas, mas não consegui nada. É difícil… No Brasil, temos coração mas não temos recursos. Na Alemanha é o contrário.

As minhas juntas doem; acho que eu já preciso de um novo tênis de corrida. As minhas pernas pesam e a coluna também. Talvez eu devesse parar de correr. Talvez tenha sido o pesadelo que tive na noite passada que me deixou assim.

Eu sinto tanta falta de água salgada… Jamais poderia imaginar! Acabei de olhar as propriedades do coentro na internet. Vi que era bom contra dor nas juntas e reumatismos…! Sempre que tomo banho de banheira (não é muito comum), sinto umas presenças estranhas. Hoje também senti. Aliás, quando tomo banho sinto uns medos estranhos.

E rolam uns pensamentos bem negativos, como que para saírem de mim junto com a gordura do corpo (eu não tenho sujeira). Mas eu preciso me controlar; a minha mente é muito negativa e viciada em pensamentos monstruosos.

Eu sei que eu tenho que ter cuidado com o que penso, principalmente relacionado a outras pessoas. Como eu já disse, as pessoas que me fazem mal recebem de volta, e eu não quero desejar isso a elas. Então, quando me pego viajando nos meus ressentimentos e negativismos, procuro “usar colete salva-vidas”. Ousar e experimentar sempre, mas cautela nunca é demais.

Interessante subversão

 Fazer o ritual menor do pentagrama invocando Raphaela, Gabriela, Michaela e Auriela, traçando pentagramas cor de rosa claro. Faz uma diferença! Por que não? Ai daquele/a que nunca ousa! Vai morrer encaixotado. Pior: vai passar a vida dentro das suas caixas, pulando de uma para a outra.

Tenho detestado os menores vestígios do patriarcado se esgueirando para entrar até mesmo na minha vida íntima. Em todos os lugares que eu olho, ele está lá, me olhando de volta. Tenho feito o possível para torcê-lo em algo andrógino. Enquanto o meu gênio sem gênero não se manifesta, eu uso o gênero oposto do proposto nos rituais, que é o mesmo que o meu. Parei de tentar me conectar em pensamento e coração com um “sagrado anjo guardião”, passando a invocar a minha “sagrada protetora”. Fez diferença também.

Todas as organizações machistas e opressoras estão fadadas a findar. O problema é quanto estrago fazem antes de isso ocorrer. *suspiro*

Estou esperando o meu namorado. Sei que vamos brigar porque ele fez uma coisa muito feia e me deixou com muita raiva. O meu humor está marcial, a minha espada está a postos. Mas eu sou responsável; fui para a academia antes da conversa, comi, acendi um incenso e estou pensando que o amor precisa entrar em algum momento dentro desse ódio e revertê-lo. Quer dizer, apesar de eu estar pensando “die, you male bitch”, me cerquei de objetos cor de rosa, roupa cor de rosa, tudo cor de rosa, inclusive os pentagramas para ver se consigo usar um discurso ou ter um objetivo mais amoroso do que destruidor. É uma tentativa…

Visitas ao Cristóvão

Desde novembro de 2013, venho fazendo visitas a um menino angolano de 12 anos em um hospital nas redondezas de Berlim. Para ir até lá, preciso tomar 2 trens e, porque custam dinheiro e eu levo três horas só de translado, vou menos vezes do que gostaria.

Eu tive muita sorte. É apenas o meu primeiro trabalho voluntário e ele é um menino educado, gentil, maduro. Cheio de razão para se revoltar com a vida e ser uma pessoa amarga mas, no entanto, é um doce. Ele está hospitalizado há quase dois anos com um problema na perna. Não vou dar detalhes.

No dia do Natal, no ano passado, eu fui lá rapidinho. Não queria deixá-lo sozinho. Foi quando ele me perguntou sobre Jesus ser Deus, e “se Jesus é filho de Deus, José é Deus? Como Jesus pode ser filho de Deus e de José ao mesmo tempo”? Depois, ele também me perguntou: “nunca matei ninguém, nunca roubei, nunca fiz nenhuma maldade com ninguém. Por que isso, de repente, aconteceu comigo”? E eu fiquei tão orgulhosa dele por levantar essas questões! A gente se dá bem. Conversei com ele um pouco sobre isso, secretamente incomodada que já há alguém buzinando sobre Jesus no ouvido dele.

De todos os hospitais do mundo – ele também tem sorte, esse é uma das melhores opções. Muitas pessoas vão visitá-lo e as enfermeiras já viraram uma segunda família. Preciso dizer que, em um ano, o alemão dele é melhor do que o meu, em quatro? Achei divertido quando ele me contou que, um dia, se assustou quando respondeu às enfermeiras em alemão! Ele não pode se comunicar com a família porque o programa no qual ele está inscrito proíbe. Acho compreensível se houver outras crianças cujos pais não tenham telefone e elas pudessem ficar se comparando mas, no caso dele que está sozinho em um quarto, acho estranho. Como podem enviar o menino de Angola para a Alemanha e a família não acompanhar os processos médicos que estão sendo feitos? Elas devem ter assinado algum papel, legalizando a “troca” mas, mesmo assim… Odeio pensar que Cristóvão é uma cobaia e que vários alemães com problemas semelhantes não têm o mesmo tratamento; simplesmente têm a perna amputada.

Problemas para se resolver na área dos Direitos Humanos. Políticas e leis estragam e atrapalham todas as boas ações. No mundo em que a gente vive, eu não acredito em boas ações feitas de coração quando se cruza fronteiras. Mas o Cristóvão teve sorte. Ele recebeu um tratamento que muitas pessoas não recebem, e está se recuperando.

No mês de março, por falta de dinheiro não consegui ir visitá-lo. Prometi e não cumpri, e me sinto mal com isso. Também, preciso preparar mais aulas de português com exercícios para levar para ele.