amarras

Estou assistindo Orange is the New Black e, como todos os seriados de televisão ou filmes costumam fazer comigo, sou transportada para outras realidades, absorvendo questões e pensando sobre coisas que normalmente eu não pensaria sem ter essa influência externa. Desse modo, qualquer programinha furreco de televisão me leva a questões mais profundas sobre o viver. Tudo no mundo me leva à reflexão. Mas essa série não é uma das furrecas que eu assisto.

Essa série quebra um monte de tabus e explora hipocrisias do sistema em que vivemos, o lado horrível das chantagens e escambos, da tortura emocional e psicológica que sofrem as pessoas encarceradas. Não são animais (eu não gosto dessa analogia porque não acho que os animais sejam seres inferiores nem mereçam um tratamento assim) e não são apenas criminosos, são seres humanos. A regra do mais forte, do mais poderoso, daquele que tem mais contatos, daquele que pode dobrar as leis para proveito próprio e tendo aval jurídico para fazê-lo impera. É o lar doce lar dos sem escrúpulo, dos hipócritas, dos malditos.

A questão da liberdade é, eu diria, a minha questão alfa. Liberdade é a palavra que eu mais amo e a que eu mais trabalho. É a palavra em que eu mais acredito. E é uma das palavras mais mal-empregadas e mais distorcidas que existe em todas as línguas.

Por que precisamos viver em uma sociedade que precise de prisões? Porque as pessoas não sabem onde termina o seu espaço e começa o dos outros; porque as pessoas acham que podem inferir as próprias vontades às vontades alheias, roubá-los de seus direitos, acham que liberdade é escapar de cumprir os seus deveres, enfim… Muitos enganos.

Mas o que eu queria mesmo destacar é que prisioneiro não é só aquele que foi encarcerado. Prisioneiro é todo aquele que precisa viver de acordo com regras alheias às suas próprias e opostas à sua Vontade. (Essa Vontade tem letra maiúscula porque é um conceito desenvolvido por Aleister Crowley, de acordo com a Lei de Thelema de 1904 que explica o funcionamento do universo, e todos seres como estrelas únicas e eternas, que refletem a verdade única e absoluta que é “deus”, com uma missão a ser cumprida em vida. – Essa é a minha interpretação pessoal, resumida a grosso modo.)

A minha liberdade não pode inferir dor ao outro. A minha liberdade não pode roubar a liberdade do outro. A minha liberdade não pode ser tomada por outro e qualquer um que tente eu tenho liberdade para impedi-lo. Quem acredita em liberdade deixa de fazer muitas coisas.

E todo aquele que está preso aos seus vícios de pensamentos, a vícios de quaisquer tipo, todo aquele que não consegue ser dono se si mesmo, que não consegue ter autonomia, consciência e controle sobre si mesmo e sobre as suas ações também é um prisioneiro, mesmo que esteja fora de uma cela. É por isso que a espiritualidade é importante. Procurar crenças espirituais é uma forma de compreender e de se questionar sobre o próprio espaço, o espaço que o corpo físico ocupa e o espaço interno ao qual só nós temos acesso. É só a partir desse encontro que podemos nos libertar das amarras invisíveis que nos impedem de ser felizes e inteiros com o mundo. E qualquer crença que imponha barreiras para essa felicidade criando amarras que não pertencem a você estão fazendo de você um prisioneiro. Liberte-se delas.

(Escutando Aes Dana, álbum Perimeters)

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