Os processos são evolutivos, cheios de mudanças, altos e baixos. O momento “agora” é esse, como descrevo a seguir. Pode ser que amanhã eu seja apresentada a uma outra forma de enxergar a situação por um ângulo completamente diferente e seja suficiente para me fazer mudar de ideia. Estou aberta a mudar de ponto de vista, principalmente quando os processos partem de dentro, do meu próprio aprendizado e observações. Não sinto que preciso fixar as minhas convicções só para satisfazer a um mundo que reage muito mal a mudanças ou para contrair menos críticas das pessoas que me rodeiam. Hoje estou assim e isso é fruto dos meus momentos e experiências presentes. Se amanhã eu mudar de opinião, estarei imersa em um contexto diferente, aprendendo coisas novas e ampliando os horizontes. As minhas contradições são um pouco mais sofisticadas do que ocupar pontos opostos entre dois extremos, como “odeio criança/ amo criança”. Eu amo criança; eu só não entendo, nesse momento, por que as pessoas têm filhos. (“Ontem” eu entendia isso perfeitamente porque estava em um relacionamento estável, apesar de monótono e totalmente insatisfatório, e o meu corpo estava com o despertador biológico ligado.)

Acho que elas pensam “é, seria legal” e não fazem nada para não acontecer, então simplesmente acontece e elas têm que lidar. Uma criança eu até entendo, mas… Quatro?! Hoje, na creche, um menino de quem eu gosto muito e com quem eu costumo brincar teve um acesso de agressividade sem motivo aparente. Ele ficou chateado que um jogo não correu como ele queria e não aceitou conversa. Mordeu a bola de espuma, me arranhou, me deu socos, me riscou com giz, jogou giz em mim, quis me acertar com as cadeiras de plástico… Não teve diálogo. Falei mil vezes que não achava engraçado, que não era um jogo, que eu não estava contente, que aquilo não era legal, mas a minha vontade era encher a bunda dele de palmadas. Quando o discurso e a conversa não surtem efeito, sabe? E eu não fiz nada, não impliquei com ele, nada. Eu não sei de onde veio isso. O que eu fiz para engatilhar a frustração desse menino? A mãe dele também não conseguiu deter a fúria. Ele quase derrubou o carrinho do bebê recém nascido. Saí de lá como todos os dias: suada, babada, grudenta, com areia por toda a roupa, melecada e ainda com a moral lá embaixo.

Não acho que seja o trabalho ideal para mim. Eu não me sinto fazendo bem a essas crianças, eu não me sinto envolvida em um projeto que mude a vida dessas mães ou das famílias. Eu não acho que seja um tempo produtivo. Se eu tivesse que fazer esse trampo um mês acho que eu ia ficar bastante infeliz. Aí penso nisso e logo solto gargalhadas de absurdidade. Imagina ser mãe! E isso é porque, no geral, o meu discurso rima com os meus pensamentos que são “adoro criança!”. Elas lá na casa delas e eu aqui. Super brinco, sorrio, me dedico por alguns minutos ou horas. Quando eu canso, quero distância e quero ter o meu tempo e espaço, mas com criança não existe isso. Não sei como essas mães fazem e, pelo o que eu vejo elas não fazem. Não tem como fazer. Não dá tempo, não sobra energia. Elas estão ocupadas com o básico da vida delas e dos bebês.

Foi daí que pensei que os sentimentos de abandono e rejeição são traumas do nosso tempo produzidos pelo nosso modo de vida, e instalados durante a infância. Não são os péssimos pais que temos, é todo um sistema. O sistema capitalista, por exemplo, que faz com que os pais trabalhem e passem o dia for a, e a criança tenha que ficar em uma creche, com pessoas e outras crianças estranhas, desenvolvendo uma adaptação tosca e artificial (cada dia aumenta o tempo de distância entre pais e filhos um pouquinho).

Aí eu lembro que era a minha avó que tinha que me deixar no jardim de infância e ela não conseguia me deixar lá chorando como eu chorava (detestando). Ela disse que eu chorava muito. Eu não lembro de chorar, eu não lembro o que eu sentia. Eu não sei se foi uma coisa boa ou ruim pra mim ela ter me levado de volta pra casa. Eu posso ter crescido acreditando que eu tinha uma proteção que era irreal. Ou eu posso ter crescido acreditando (sem saber, ainda por cima) que eu ia ser abandonada, deixada lá e depois ela me levava pra casa e era como se dissesse “brincadeirinha!”. Eu não sei como isso ficou registrado no meu emocional e é injusto que crianças desde o primeiro dia de vida, sem nenhum filtro tenham também emoções que ficam lá, escondidas… Atuando depois na vida adulta sem elas terem controle ou consciência. Mas eu sei que sofro de um registro de rejeição e abandono que eu não sei de onde vêm.

Fico imaginando… Eu não sangrei quando perdi a virgindade. E se algum pervertido da família resolveu “me fazer um favor” enfiando o dedo na minha vagina de bebê para que não fosse tão ruim pra mim mais tarde, me roubando o direito de lidar com o meu próprio corpo de forma consciente, quando fosse o momento propício? Isso pode até não ter acontecido comigo, mas está certamente registrado na memória de milhares de bebês meninas. Antes de eu transar, ninguém nunca me disse “o seu hímen é complacente!”. Eu nem sei se há formas de ver isso… Sabem que existem, mas é como se fossem um mito. E esse tipo de decisão de alguém que tinha acesso à intimidade do bebê fica pra sempre apagada da memória da pessoa, mas não que cause menos danos. Você sente coisas que não sabe de onde vêm e tem paranóias, sensações que não sabe quais são a origem.

Então há milhões, bilhões de adultos no mundo que não sabem se tiveram uma vida de bebê emocionalmente segura, nutritiva, cheia de amor e atenção. E, a julgar pela mentalidade dos adultos e analisando a história do mundo, eu me pergunto… Em algum momento da humanidade produzimos bebês de forma consciente para gerar seres saudáveis, inteiros? Todos os espermatozóides vencedores estão ou estiveram ativos no mundo em suas determinadas épocas e foram lançados em uma sociedade selvagem e fria – as pessoas que defendem se eles vivem ou morrem não defendem indivíduos e almas, defendem ideias. Somos todos sobreviventes, mas a que preço?

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