Quando o mar está revolto e o mergulhador por acaso foi arrastado pela correnteza e não consegue respirar porque a cada vez que ele sobe à superfície, uma nova onda vem e quebra em cima dele, que perguntas se faz – quando você é ao mesmo tempo mergulhador na água e observador na praia?

Se a luta é pela vida e pela afirmação da vida, não há tempo de pensar. O pensamento pode apenas decidir se você continua lutando ou se desiste. Se o pensamento, apesar de todo o desespero pensar “acalme-se que você vai conseguir” e aproveita todas as possibilidades de puxar o mínimo de ar que for, talvez você consiga mesmo. Mas tem um momento de dúvida e esse é crucial para determinar o fim.

Os momentos de transformação, que são tantos na minha vida que eu nem sei ao certo quando é que não estou neles, a minha consciência funciona como o observador da praia ligado ao mergulhador. Pensa só uma coisa: resista. Por mais que o cansaço me faça querer desistir e deixar levar, talvez o orgulho salve a vida do mergulho. Não posso me deixar levar e morrer na praia. Então o esforço que faço é contra forças da natureza – da minha própria?

afogamento

A sua consciência está em suspenso, mas você sabe que está em uma posição desfavorável e que pode não resistir à insistência da água. O ideal de quem respira oxigênio é poder respirar de novo e sempre. Esse é o meu ideal também, mas não o mínimo ar que eu puder puxar e sim, encher os pulmões com o ar mais puro do meio da floresta.

Espera-se pelo milagre de o mar acalmar e o mergulhador ainda ter energia de nadar até à beira para descansar e recuperar as energias? Esses milagres muitas vezes acontecem… Mas não dá para prever quando isso vai acontecer. E os momentos de calmaria, estou tão ocupada reparando o corpo e restaurando a energia dos momentos de tormenta que não tenho tempo para dedicar a mais nada.

Fico tentando voltar ao passado para saber o ponto exato que eu cruzei uma situação relativamente segura à beira mar para o meio das ondas tumultuosas. Ultrapassei, em algum momento, uma linha ligada a um ponto que tenha sido impossível voltar a superfície para respirar e, desde então, vivo no mar. Será que há um ponto de “no-return”? E que ponto foi esse, exatamente? Quando foi a primeira vez que eu quebrei que ficou impossível de consertar?

Em meio a tantos banhos de água salgada a alma, ao menos, está lavada. Eu que digo não acreditar em sacrifícios, cometo vários.

escutando: Wild (Poe, álbum Haunted)

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