Ô chuva abençoada!” pensei, e logo veio um trovão. “Agradeço, deuses, por terem ouvido as minhas preces. O mundo está começando a se abrir para mim”. Eu não sei se Indra, sendo o Rei dos Deuses e um deus de fogo, sendo o deus regente da estrela do meu ascendente teria o poder dos trovões. Mas se tiver, está me deixando encabulada.

Seria mesmo uma pena se tudo isso fosse destruído, ou se apenas o que fosse destruído fosse o observador. Eu sentiria uma falta imensa de olhar a chuva, sentir o seu frescor, o cheiro do mato verde coberto por ela se eu não existisse mais. Se, comigo, toda a humanidade também deixasse de existir. Dessas coisas eu sentiria tanta falta! Diversas vezes penso que abriria mão da minha própria vida para que a vida no planeta voltasse a ter equanimidade mas, se isso de fato acontecesse, estaria muito além da ação de um mártir já que a causa não seria nomeada e nem conhecida, e sim um pacto feito silenciosamente entre mim e todos os deuses. Também seria muito além de um suicídio, pois toda a humanidade deixaria de existir comigo, mas não pelas minhas mãos. As minhas mãos foram doadas a serviço do bem. As minhas mãos vão, em sentido literário, ficar esfoladas de tanto tentar.

Quantas mãos que curam temos no planeta? Quantas mãos que se unem e fazem a força? Quantas mãos que abençoam, que fazem a diferença – mesmo que por um segundo, mesmo que para uma pessoa ainda bem pequena? Há quantas mãos no mundo que criam, plantam, cultivam, dão a mão a alguém que tem medo e ajudam na travessia, desde que somos muito crianças até quando ficamos velhos? Quantas mãos servem para amaciar… Essas ferramentas incríveis que temos que fazem coisas! Tocam instrumentos, nos dão prazer, preparam alimento, dão segurança… Escrevem.

Seria uma pena não existir mais e não poder ver que os pássaros, mesmo com toda essa chuva forte, voam! Nada… Não era um voo à toa, estavam caçando! Uma chuva enorme e todos os humanos escondidos em suas tocas mas, os pássaros, caçando em bando! Seria uma pena não ouvir mais o barulho das árvores se movimentando enquanto o vento sopra durante a chuva.

Às vezes acho que esses pequenos momentos de pureza intensa redimem parcialmente o mundo. É como o antídoto secreto que limpa a energia cansada que não vemos. Quando a beleza é pura e natural assim, quando o amor é pelo real, pela união com a natureza, acho que a vida se renova. Alguém já deve ter dito isso de alguma forma, em algum lugar. Uma vez, ouvi em um momento especial que a água era o elemento mais humilde que existe; brota e viaja das maiores altitudes até os recônditos mais profundos. Nunca esqueci.

(escutando Sven Monsoon – Parte II, música ambiente)

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